abr 262012
 

Meu amigo me chamou para jogar Gurps Supers RPG, eu topei na hora.

Disse que meu super-herói personagem teria o poder de acabar com a fome e com o câncer através de Likes e Shares das outras pessoas.

Ele então disse que não dava para fazer este personagem.

Eu reclamei na hora dizendo que todo mundo já joga assim no facebook.

abr 132012
 

Ela saiu exausta do trabalho e mesmo assim foi no mercado, pegou a fila gigante do açougue, comparou os preços para poder maximizar seu orçamento, comprou os ingredientes daquela nova receita que aprendera na Ana Maria Braga.

Chegando em casa, antes mesmo de relaxar, foi preparar o jantar, lavando a louça nos intervalos de cozimento, pôs a mesa, pintou um sorriso no rosto e chamou seu marido, filhos e mãe para comerem.

Quando todos estavam sentados ela tomou um gole de seu suco de laranja (preparado por ela) quando sua mãe disse:

- Para com isso! Nada de comer ainda! Agora vamos todos agradecer a Deus por esta refeição.

- Ah vai se fudê! – E foi tomar seu banho.

mar 262012
 

“Oh, Sweet-dear, you see, Hope is not about security, you can’t barter your Hope for accomplishments and the one who does are really mean people.

“…”

“Wait a sec…..I’m a shrink. In theory, I do that…”

“…”

[sigh] “You see dear? Really mean people…”

 

fev 242012
 

“Alô”

“Fala Tadeu! Beleza?”

“Oh Caio! Beleza, e com você?”

“Tranquilo, está fazendo o quê?”

“Almocei agora a pouco e estou jogando Batman pra ver se faço um combo em que ele lave minha louça”

“Então estou descendo aí com um fardinho de cerveja”

“Ok, mas e pra você, não vai beber nada?”

 

– Baseado em uma conversa do Guizaum e Vivacqua

fev 162012
 

 

Querido diário, eu vou matar aquela vadia.

Acho melhor escrever com exatidão o que ocorreu, não sei quanto da minha memória aquela merda de radiação afetará:

Ontem pela manhã avistei um pequeno acampamento enquanto estava a caminho de Landburg, pelo cheiro e fumaça que saia de uma das ruínas, eram produtores químicos. Já andei com este tipo certa vez, devido à sede e fome, todos acabam usando as drogas que produzem, minha querida Bowboom até tremeu de excitação.

Grana fácil. Fui até uma elevação, cobri meu corpo com um pano para me camuflar na areia do deserto, posicionei minha sniper, ajustei a mira, então aguardei.

Não precisei de mais do que quinze minutos, certa hora quando a maioria dos homens de arma estavam à vista, comecei os disparos, um tiro por cabeça, sete brutamontes ao chão. Ah! Como adoro minha vida.

Aguardei mais um pouco, soltaram dois cachorros. Merda! Cachorros, sério? Odeio matar animais, não tive escolha, eram rápidos, mas consegui pegá-los quando vieram em linha reta, ao voltar os olhos para as ruínas, vi um homem apontando um lança foguetes na minha direção.

CARALHO! Um lança foguetes!

Minha pele já queimada do sol ficou albina. Juro que não sei como fiz, apenas apontei enquanto mastigava minha língua, acertei bem no foguete. Cara! Eu sou ou não sou o melhor sniper que já existiu?

A casa explodiu, duas vezes, tudo o que havia lá dentro virou fumaça, fumaça multicolorida por sinal, quem avistasse ao longe acharia que tinha uma parada gay por ali.

Fui procurar nas outras ruínas, as afastadas do laboratório. Afinal, eles deviam usar aquilo de acampamento, no mínimo ficaria com alguns salários, um tanto de água e comida também.

Foi quando ouvi uma voz esganiçada gritando de dentro da terra, procurei um pouco e achei um bunker, quando abri saiu de lá uma jovem, negra, muito bonita, usando apenas trapos, marcas em seu corpo – escultural – indicavam que devia ter apanhado, com certeza presa como escrava dos recém-cadáveres. Porcos.

Entrei no bunker e ela se afastou assustada, olhei em volta e vi algumas malas, abrir a fechadura foi fácil, lá dentro encontrei ouro e algumas seringas. Não sei o que eram, mas deviam valer muito dinheiro para alguém.

Peguei as malas, chamei a garota de Sexta-Feira e a puxei pelo braço, ela me seguiu sem resistência, fomos até minha moto e a levei até minha casa.

Ao chegarmos ofereci meu cantil, ela tomou tudo em um único gole, ao terminar o jogou longe e se lançou aos meus braços… Se ela era escrava sexual, com certeza gostava de sua função.

Ao terminarmos, ela me injetou alguma droga, pouco antes que eu apagasse, ela me contou que seu nome era Selina, capitã na Legião dos Assassinos. Tinha contratado aqueles brutamontes para sequestrarem e matarem o Bispo de Landburg, mas quando eles perceberam quem era seu cativo, a trancaram e exigiram mais dinheiro. Minha inclusão na história a fez poupar o dinheiro que pagaria a eles, garantiu o assassinato do bispo na explosão, e ainda fez da situação uma briga interna que não ligaria ela em nenhum momento a todo o ocorrido. Disse também que fora ela que rasgou sua própria roupa, e ficou feliz ao descobrir que eu era bonitinho.

Deu-me outro beijo e foi embora, levando meu dinheiro, minhas drogas, minha moto e meu orgulho… como pude ser tão facilmente manipulado?

 

 

Está amanhecendo, finalmente volto a sentir minhas pernas, estou ouvindo carros ao longe, a desgraçada me denunciou mesmo. Melhor me posicionar, Bowboom gritará muito hoje, tenho alguns soldados do vaticano para matar e uma vingança para caçar.

Eu vou matar aquela vadia.

jan 262012
 

“Que isso cara? Bebendo sozinho aqui hoje, está esperando alguém?”

“Não, hoje não, estava aqui só para relaxar um pouco.”

“Relaxar de quê, você não veio pra cá de férias?”

“Relaxar da minha família, desde que cheguei já me pediram para formatar um computador, trocar duas tomadas, colocar suporte novo pro microondas… precisava sair de casa um pouco.”

“Hahaha, foda isso…” – Puxou uma cadeira e se sentou.

“Nem me diga, volto hoje só quando todos estiverem dormindo.”

“Mas viu, esse seu celular é igualzinho o meu, você poderia dar uma olhada porque aqui o Angry Birds está dando erro?”

dez 202011
 

 

(…)

Pequeno Julian…

Sei que nem és tão pequeno assim, e também sei que quando estava na tua idade eu mirava o horizonte do mesmo jeito que você. Mas não é por isso que somos tão parecidos? Tenho ciência de que quando faz isso, assim como eu, está sem muitas esperanças ou com a alma dolorida, meu pequeno Julian…

Expresse sua dor e evite retrair-se para dentro de sua armadura, garoto. Ah, sim, somos invulneráveis dentro delas, mas também somos pouco mais que o próprio metal de que elas são compostas quando nos protegemos assim. Eu sei que você PENSA saber tudo isso, mas nunca sentiu até agora uma mulher dos sonhos se afastar de você por sua frieza… E nunca se sabe algo de fato, se não podemos sentir esse algo de alguma forma, filhote.

Uma vez, um de meus amigos disse que os deuses se reuniram num conselho, quando do advento de me criarem e disseram ‘façamos este de aço, barro será pouco para o que ele irá passar’ – quero dizer com isso que compreendo sua dor, e que não preciso de muito para tal, sendo que somos compostos da mesma fibra. No entanto, quando na sua idade eu tinha o péssimo hábito de cuspir fogo no mundo. Precisava ferir algo para que pudesse esquecer a dor de minhas próprias feridas…

Não, eu não me curava filhote, apenas tomava uma atitude que me afastava dos humanos ainda mais. Quando expuser suas dores ao mundo, portanto, procure não feri-lo; mesmo que o mesmo seja culpado pelas suas feridas.

Ferir o mundo é pura vingança, e toda vingança é via de regra uma atitude tola e impensada. Isso apenas lhe trará mais dores. Sem mencionar que causar dores ao mundo é, no fim das contas, causar dores a si mesmo. Lembra que as palavras proferidas são flechas que sempre retornam? E que, portanto devemos embebê-las em mel, pois veneno e fel já abundam em toda a existência humana?

Nada disso – embora simples – é fácil. E as pessoas irão ferir você ao constatar isso. É seu dever compreendê-las e procurar aliviar a sua dor – mesmo sendo alvo de acusações sem fundamento.

Algo muito interessante, pequeno Julian, e de extrema importância que saiba é que,com freqüência considerável aqueles ao seu redor irão associar sua figura à Causa Mater de seus problemas. E tudo será apenas por você ser quem está mais próximo; só isso, por incrível que pareça.

A dor humana hoje em dia é tão forte quanto no início dos tempos, mesmo com tantos estudos. Filhote, ainda somos almas imortais e com tantas incógnitas que brotamos em novidades como se fôssemos uma Eterna Primavera Cósmica. Mas posso afirmar que a maioria das dores hoje em dia é fruto de frustrações…

Frustrações em sua totalidade são advindas das expectativas de vida não realizadas, do conflito entre a Realidade e a verdade que criamos em devaneios, da incapacidade da maioria das pessoas de tomar as rédeas da própria Vida, meu filho. E não raro as pessoas precisam de um depósito de culpa – normalmente é quem estará mais próximo. Sim nós, os caminhantes, mesmo sem um lar fixo seremos na maioria das vezes quem estará mais próximo, filhote.

Não se afaste por medo disso, seria covardia, e nenhum de nós pode viver com a marca da covardia. Enfrente o mundo, as dores e a Culpa que tantos transformam em motivos para sofrer, ferir a si mesmos e aos outros. Seja paciente e sábio como o Sol… Lembra de quando passamos um dia inteiro no verão passado reclamando de como este maldito sol nos açoitava com seu calor?

Agora ele é um Sol de Inverno, nos mantendo vivos com seu calor…

(…)

 Posted by at 11:15
dez 062011
 

 

Só eu posso sorrir aqui.

Antes de tudo, devo pedir que você não tenha medo. Não tema a mim, pois posso bem ser uma criação de sua mente – como a hipótese levantada por Descartes – mas ouça de ouvidos bem largos o que eu tenho a dizer e perguntar…

Você não tem tempo. Nunca teve. Então, não pode salientar que trata-se de um perda de tempo a Arte de ouvir o meu discurso.

Pare de lançar olhares discretos a esta caixinha tiquetaqueante que oprime os seus dias, e pare de me lançar seu sorriso cortês. Bem sei o que pensas sobre cortesia; que a mesma sempre esconde uma certa dose de malícia. Então, veja se não é no teu cárcere cardíaco que abrigas um escorpião.

Sinceramente, tu me cansas com a sua “fé”. Para mim, não diferes muito dos gládios sangrentos das Cruzadas, que “disseminavam a palavra de Deus”.

E as suas juras de Amor Eterno? Ainda as mantêm? Vejo as mais pútridas almas assim declararem seu “amor” à coisa amada – como sendo eterno. Pelos deuses! Quando disser algo que se estende à Eternidade, tenha em mente ao menos um conceito semi-perfeito do que é algo Eterno. Compare-se à imensidão do que deseja, pese seu coração e então perceba se o que queres é, realmente, digno do Infinito.

Quantas vezes clamaste irmandade de nossa parte? Milhares, eu suponho. Mas te fartarias da carne de minha dama, matarias meus amigos e, caso te ofendesse algo que penso, venderias minha cabeça ao Rei. Se repetes tanto que sou teu irmão, saberias me definir a palavra “Fraternidade”?

Não crês em nada. Tua mente fraca passou de estudiosa a escrava do”Nihil”. Tu és um fraco comum, não por quê – realmente – não crês em algo que o transcenda, mas por ter Medo do Infinito. Sempre dizes que os males e adversidades irão passar. Irão mesmo passar, ou agravar-se rumo ao próximo estágio? As guerras começam com o primeiro tiro, ou com a arma engatilhada e uma mente mal intencionada?

Nunca tens certeza com relação a nada. E tuas convicções duram enquanto há conveniência em seu existir. A dúvida é um dote humano, triste, porém tolerável. Mas a indecisão é filha da Preguiça com a Fraqueza, e é amante ao mesmo tempo da Ignorância e do Orgulho.

Tens a firmeza de propósito de uma barata, por favor, não justifique a sua mesquinhez com Amor. Toda alma fraca atribui ao Amor a podridão de seus atos.

At last, but not at least, as the British would say, pare de dizer que posso contar com você, até que realmente Eu possa fazê-lo.

Sua alma infantil só prevê apoio mútuo nas festividades, e a vida não é um templo de Baco. Mas digo que de toda a tua filosofia de vida, ainda há algo que pode ser dito como um brado, tamanha a exatidão e verdade; “poderia ser pior…”

Poderia mesmo. Eu poderia não estar aqui.

 Posted by at 11:04
nov 232011
 

 

(…)

O fogo crepitava lá fora na colossal fogueira, numa noite que nevava em plena Primavera. Ainda assim, o povoado continuava a comemorar e lançar lenha ao fogo e álcool pra dentro de suas bocas e suas almas. O doutor, ancião de olhar profundo e curta barba branca, observava isso de longe, com tanta frieza no coração que nem mesmo o calor de mil fogueiras poderia sequer arranhar o gelo em seu peito.
Quando a última badalada da meia-noite se deu em seu ruidoso relógio de parede, ele ouviu três batidas espaçadas no portal de entrada. Suspirou, mas sem hesitar dirigiu-se à porta e abriu a mesma – permitindo um pavoroso ar frio adentrar a sala principal. A figura do lado de fora sorria, e sorria apenas. O senhor, velho mas de feições firmes, meneou a cabeça e respondeu o sorriso com nada mais que cordialidade, a figura sorridente entendeu o cumprimento, entrou e pôs-se a esperar o doutor.
O velho fechou a porta e cessou o frio físico, pois havia por ali uma fogueira e duas poltronas que bem serviam a sala de calor. Mas o frio em seu coração – se é que podia – foi intensificado pela figura sorridente que adentrara a sala. Tratava-se de um homem com não mais que vinte anos, porém alto e de feições que combinavam a dureza de uma provável Vida no campo, com o frescor da pouca idade, evidenciado com um incessante e perturbador sorriso. Ele observou o velho senhor, e quando percebeu seu sinal positivo, calmamente serviu-se de conhaque e sentou-se em uma das poltronas, enquanto observava o doutor fazer o mesmo.
Olharam-se durante um tempo indeterminado, algo entre segundos e poucos minutos, quando o jovem interrompeu o silêncio:

Jovem: Me chamou mais cedo, Doutor. O trato é que eu somente viria buscá-lo exatos dez segundos antes do primeiro raio de Sol tocar sua casa. Quando firmamos o mesmo eu jurava que havia sido claro, e contava que sua inteligência nos pouparia do desgastante diálogo no qual vocês humanos imploram por perdão ou mais tempo… Ou estarei eu sendo precipitado em meu julgamento, e você ainda irá me surpreender, depois de todas as criações que deu à luz o intelecto superior que lhe conferi em troca de tua alma?

Velho: Não chamei você, meu caro, para pedir Tempo ou Perdão. Vendi minha alma a um demônio, e mesmo que você ou Deus me perdoassem eu mesmo não me perdoaria na Eternidade. Sabes bem que os que imploram, normalmente tentam comprar de ti o alívio de dívida, e tudo o que te ofereci foi conhaque e uma poltrona. Eu o chamei aqui sim, para negociar, mas não para pedir que ignoremos o Passado ou nosso Contrato…

Jovem: Torne, por favor, o ambiente e nosso diálogo mais claros com tuas palavras, eu lhe rogo, Doutor…

Velho: Eu desejo que em troca de tempo extra indeterminado, você abençoe minha existência com algum toque de tua existência demoníaca… (Suspira, olha para baixo, e depois olha para as chamas)
Veja as chamas. Sei bem que fulgurações de natureza infinitamente maiores que essa aguardam-me, ansiosas por provar de minha alma para todo o sempre. E eu temo isso, não há como negar. No entanto… (perde-se em sua reflexão, ou finge fazê-lo com maestria…)

Jovem: (Pigarreia) No entanto…

Velho: …No entanto, eu, portentor do maior intelecto que já existiu, tomei como desafio tentar convencê-lo a mudar meu curso, mas de acordo com a tua, não a minha vontade. Meu desejo não é ignorar minha pena, tampouco abrandá-la, mas de fato mudar o curso da mesma, de acordo com as variáveis da mente de meu carrasco – um presente que pretendia me conferir -, como último acesso aos recursos superiores da inteligência excelsior pela qual vendi minha alma.
O que me diz, Demônio?

Jovem: Em primeira instância eu digo que sim, fui mesmo precipitado ao julgar as razões pelas quais me chamou aqui…
Vivi várias Eras dos homens, e nunca uma alma me surpreendeu duas vezes, Doutor. A tua primeira vez, desconfio que já sabes, foi a natureza de teu próprio pedido; inteligência suprema. Acostumado às mentes simples, que vendem-se por tão pouco – tão menos do que poderiam eles mesmos alcançarem sem muito esforço – eu notei em ti uma aura que somente notei no criador do aço, milênios atrás. E agora, essa inusitada proposta desperta em mim algo de humano, que não sinto há milênios também, desde que um belo par de olhos e seios se foi da Terra ao lugar de onde Caí…
Doutor, eu pasmo de nada tenho valia, poderia me dar alguma sugestão de qual poderia ser a alteração em nosso contrato?

Velho: Poderia, mas não o farei. Foi bem dito por mim, através desses lábios que o conhaque derreteu por mais de setenta anos, que seria tu a decidir meu Destino, e não eu…

Jovem: HAHAHAHAHAHAHAHA!!!! Velho amaldiçoadamente sagaz!!!! Percebeste, antes de dar lugar à tua palavra o teste que eu iria lhe propor, não é? A tua honestidade conferiu a ti muitos pontos, mas… Mas também sabias disso de antemão, não estou certo?
Pois bem, é fato que o relógio corre e teu contrato ainda está de pé, sem nem mesmo que eu comece a considerar a variável de tua proposta, que comecei a conjecturar sobre somente agora. Dê-me até dez minutos antes de teu prazo final, e irei entregar um veredicto digno do diálogo que tivemos, e do aproveitamento fantástico da dádiva que lhe conferi – estamos combinados?

Velho: E quem sou eu Mestre, para revoltar-me ante aquele que possuirá minha essência antes do Sol beijar a Terra?

O jovem agora sim demonstrou a sua natureza demoníaca, mas somente através de seus olhos.

Sua aparência continuou a mesma, mas o fogo que emanava da fogueira parecia que era absorvido pela suas íris, que lentamente tornaram-se vermelhas, e suas pupilas, lentamente tornaram-se fendas. Ele pôs-se a meditar mirando o fogo, e tornou a Noite de Walpurgis a primeira de todas as torturas à alma do Doutor.
 O velho, por sua vez, serviu-se de conhaque, e sentou de volta em sua poltrona, sentindo cada minuto pesando em seu coração como um século de guerras pesaria numa pátria. Desesperado, mas incapaz de tirar a própria Vida, ele foi obrigado a esperar, e sentir seu coração indo à boca, todas as vezes que o relógio quebrava o silêncio para visar que Walpurgis se aproximava de seu fim.
 Quando dado o advento de seu prazo, o demônio vira-se para ele e quebra o silêncio, sendo agora mais direto em suas palavras – senão mais ríspido.

Demônio: Seu prazo se aproxima, doutor. Seja direto e fale seu coração em cada resposta a partir de agora. Diga-me por quê deseja que eu revogue nosso contrato?

Doutor: Quero conhecer mais coisas.

Demônio: QUAIS?

Doutor: O Amor. O Amor é uma delas…

Demônio: E por quê eu deveria deixá-lo partir, renunciando ao meu direito e à tradição de mais de setecentos mil contratos firmados e cobrados devidamente?

Doutor: Porquê eu sou Único, acima do senso-comum da expressão. E por quê sei que sua curiosidade anda acima de sua honra à assinatura em sangue que me conferiu essa individualidade titânica.

Demônio: Verdade Doutor… (Bem calmo)
Deixar-te-ei partir… Mas não sem uma bênção de minha melhor safra…

Doutor: E qual seria, Mestre?

Demônio: Imortalidade, Doutor. Você irá se tornar imortal.

Doutor: Não! Deixa-me morrer!

Demônio: Agora é tarde, meu caro. Tarde para perceber que embora você tenha sido o mais inteligente dos mortais, ainda assim era um mortal. E que fui eu quem lhe conferiu essa dádiva da clareza de pensamento, onde teu fascínio te pregou uma peça e me conferiu ainda maior capacidade de ser teu algoz.
Doutor. Dou-tor… Eu vivencio o Espírito do Tempo, antes dele ter sido criado. E você vai partilhar de minha visão agora. Era uma bênção da existência demoníaca que desejavas? Dar-te-ei meus olhos, mas sem a pupila em fenda ou as íris escarlates; darei somente a essência. E não somente verá tuas criações deturpadas, utilizadas pela mentes que mais se assemelham aos esgotos, como verás a nobreza das coisas mais belas e simples, envelhecerem e descascarem como tinta fraca, devido à incompreensão humana…
E eu… Eu estarei lá quando conheceres o Amor, repetidas vezes, e lá estarei quando enterrá-los repetidas vezes idem.
E virá o Tempo em que você terá vivido tantas vezes esse sublime aspecto da existência, que os anjos terão inveja de ti, e Deus irá vê-lo com bons olhos, mas nunca tu poderás adentrar o Paraíso. E viverás ainda além, a ponto de ver o Amar jogado à classe de escória dos verbos, dividindo a sarjeta das palavras, das bocas, e dos corações pequenos.
Tu verás o Amor ser vulgarizado, Doutor…
Tu invejarás o Inferno…
E nós não poderemos aceitá-lo.

Doutor: Não! Perdoa-me, toma-me, pois de fato que já amo e sou correspondido! Eu menti, menti! Amo a jovem que me serve em casa, e iríamos nos casar! Não posso ver esse futuro! Toma-me demônio, e dilacera-me a alma, mas não permita-me ver o Amor maculado – nem agora, nem nunca!

Demônio: Eu sei que mentiu. E é justamente por isso que lhe conferi minha bênção…
…Agora, conviva com isso, meu caro.
Bom fim de Walpurgis!

E o demônio desfez-se em névoa.
Névoa que cheirava ao perfume dela, por quem o velho condenara a própria alma pela segunda vez…

(…)

nov 212011
 

 

Candy? Are you there? Is this the right bridge? Oh, I see your smoke now…

Two centuries since the last dark alley we met in our windy night walk… Hell yeah Candy, nothing has changed. Still I am a passionate lover of night, wind, and cigarettes – though I don’t smoke anymore as I used to.

If I have achieved that feeling? Oh no Candy, we are talking about me, did you forget? Which one would share that life I lead? A woman’s heart by all means wants a safe haven my darling… And that, only my arms can provide, but how about the rest?

So, you are still smoking… Well, take your time, but stop one day, savvy?

Last hundred years I have been dwelling among roads and outposts. I am always arriving and leaving, and The Road has been more like a mother and home than a certain ceiling somewhere. Yes, whiskey has been more like water as well… Old habits die hard, eh? And YOU still meet me under this same bridge, do you realize how it echoes as we talk?

A gipsy? A bloody gipsy, you call me? Well, nice label, better than the Black or the Blue ones. No Candy, I don’t talk to people, people talk to me, and YES, I used to be in a better shape, but could you stop staring at my ragged jacket and start looking into my eyes? That would be nice of your part…

Do not be a fool darling, people don’t come and go; WE come and go. And people – as the song – remain the same. Also, stop thinking that you are not like them. Yes it’s strange I know, someone like me talking like that… But I have realized that we are part of their world. More; we should call it OUR world…

Stop snarling, woman…

Better.

I see… You miss the Ancient Mists we came from… So do I, of course. The old days should be praised, we both know – but leave that behind. No more tails, nor fur, nor fangs – time to become part of something bigger, darling. To do this we are supposed to evolve…

What have I become? I really don’t know Candy… I’m still snarling at people when I am angry, still I howl to the moon when I am happy… But now… Now I can feel the pulse of the crowd, I can sense their inner wisdom; I can see their value…

You can say that’s too soft, I’d rather see that as a more experienced response… I strongly believe that you have lost your imagination Candy, something really awful when we are talking about someone that has came from a world that relies on people’s memories of long gone tales to still exist – for we are from Arcadia, darling.

Yes, I can help you, although I myself don’t know the way. I guess the road will rise up to meet us, and the wind will always be at our back…

Shouldn’t we shift our paws into hands, and our fangs into teeth? Why? Because it’s cold here, under this bloody bridge you love so much, and we only have each other as a source of heat…

No, I don’t love you either, but I want you tonight really bad…

 

Nice and slowly, kiss me as if there was no tomorrow…

 

(…)

 

Light me up a cigarette Candy, and hold me…